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quarta-feira, 28 de outubro de 2020

INTERPRETAÇÃO BÍBLICA DE JOÃO 6.37

 


Tudo o que o Pai me dá vira a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”

 

Sabemos que há textos bíblicos que são mais difíceis de serem interpretados. O apóstolo Pedro falando sobre isso, disse que, “... o nosso irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, falando disto, com em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, ...” (2Pe 3. 15,16). Exatamente, nesses pontos difíceis, que se assenta muitas vezes as contradições e até heresias, que têm sido tema de infindáveis debates entre os cristãos ao longo da história da igreja.

Quero falar sobre o texto em apreço, onde, os que ensinam, que “uma vez salvo, salvo para sempre”, o tomam como uma âncora para tal afirmação. Dizendo que os que vem a Jesus de maneira nenhuma ele lançará fora. Isso é verdade, porém, não da forma com eles ensinam.

Quero pedir aos meus amados leitores, que tenham um pouco de paciência neste texto, pois o assunto é muito sério, e precisamos nos deter em algumas minucias, e para tanto, vamos precisar de um texto mais longo. Espero poder te ajudar a entender melhor o assunto.

Quero, também, antes de tudo, dizer que não se trata de uma posição arminiana ou calvinista, mas, sobretudo, bíblica do assunto. Tenho visto que, por achar que já está com a salvação totalmente garantida, alguns passam a cometer pecados voluntários, e, quando são corrigidos, respondem que são salvos para sempre, e de alguma maneira chegarão nos céus. Contrariando total e frontalmente as exortações bíblicas, que nos advertem dizendo: “Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus” (2Co 7.1); “Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho” (Gal 1.6); “Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam e avançando para as que estão diante de mim, prossigo par o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fil 3. 13,14); “Conservando a fé e a boa consciência, rejeitando a qual alguns fizeram naufrágio na fé” (1Tm 1. 19); “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus Vivo” (He 3.12). Poderia escrever aqui, centenas de versículos, onde nos provam, tanto a necessidade de permanecer firme, quanto o perigo de cair dessa graça tão maravilhosa que abraçamos um dia pela fé.

Vamos ao texto supracitado de João 6.37. Quero traze-lo em algumas versões, para que fique um pouco mais claro a todos.

Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” – ARA

Todo aquele que o Pai me der virá a mim, e quem vier a mim, a esse jamais rejeitarei – Bíblia Viva

Todo aquele que o Pai me der virá a mim, e quem vier a mim eu jamais rejeitarei” – NVI

Contudo, aqueles que o Pai me dá virão a mim, e eu jamais os rejeitarei” – NVT

Tendo trazido o texto em diversas versões de Bíblias, podemos agora começar a fazer uma analise e uma interpretação do mesmo. Primeiro, vamos dividir o versículo em dois momentos.

A primeira parte...aqueles que o Pai me der...”, se trata da coletividade, ou seja, da igreja, pois no grego, a palavra “todo” é singular neutro. Vejamos o texto de João 17.2 – “Assim como lhe deste poder sobre toda carne, para que dê a vida eterna a todos quantos lhe deste”. A segunda parte... e o que vem a mim...”, é individual. Portanto, já entendemos preliminarmente, que o que foi dado a Jesus foi a comunidade dos salvos, a igreja, e para fazer parte dessa igreja, é necessário que o individuo venha então a Jesus, como ele mesmo disse: “Vinde a mim, todos ...” (Mt 11.28). Sem sombra de dúvida, é o Espírito Santo que os capacita a vir a Jesus. O apóstolo Paulo nos diz “De sorte que  a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10.17). Por isso, que não tem como ser de outra forma, é Deus o Pai quem dá tudo ao Filho, pois é sua palavra que convence o pecador através do Espírito Santo.

Dito estas coisas, vamos agora para a parte final do texto, onde mais se aferram e dizem: Jesus jamais nos lançará fora. Isso é uma grande verdade! Porém, se faz necessário algumas explicações mais detalhadas, para sabermos o que significa esse “não lançarei fora” dito por Jesus.

Entendo que a versão da Bíblia Viva, NVI e NVT que diz “... a esse jamais rejeitarei”, está melhor compreensível. Vamos aqui fazer uma parábola: Um certo homem rico, dono de uma grande fábrica, saiu para contratar pessoas para seu serviço. Deixou o seu filho a quem ele muito confiava para receber os que fossem enviados por seu pai e definitivamente contratá-los à trabalhar em sua empresa. Todos os que foram chegando, o filho os contratou e disse: Todos quantos o meu pai está enviando a mim, eu não vou rejeitar, vou contratar a todos.  Com isso, o filho não está dizendo que eles irão trabalhar a vida toda na empresa, e que nunca vão sair da empresa, mas que, todos os que chegaram foram contratados.

Jesus está dizendo exatamente isso, que não vai rejeitar a ninguém. Não importa o quanto o homem seja pecador. Ele recebeu Mateus, alto funcionário da receita fiscal do governo romano, também o ladrão Zaqueu, e levou salvação à sua casa. Recebeu a Maria Madalena que estava cheia de demônios, bem como a mulher samaritana. Todos. Sim, todos que vierem, ele não rejeitará. Isso nos diz que não há elite da salvação. Não há os melhores para serem salvos, mas, “Onde abundou o pecado, superabundou a graça”. Isso não nos assegura uma salvação para sempre, apenas nos diz que ele não nos rejeitará. A partir do momento que nos achegarmos a Ele, temos que tomar nossa cruz, renunciar a nós mesmos e segui-lo até o fim.

A apóstolo Pedro, falando da salvação, é ainda muito mais enfático, quanto a nossa perseverança. Vejamos: “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção que, pela concupiscência, há no mundo, é vós também, pondo nisto mesmo toda a diligencia, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude, a ciência, e à ciência, a temperança, e à temperança, a paciência, e à paciência, a piedade, e à piedade, a fraternidade, e à fraternidade, o amor. Porque, se em vós houver e aumentarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele em quem não há estas coisas é cego, nada vendo ao longe, havendo-se esquecido da purificação dos seus antigos pecados. Portando, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque fazendo isto, nunca jamais tropeçareis. Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 1. 4-11).

Portanto, não pensemos que é somente viver deitado eternamente em berço esplêndido, e no final alcançar a salvação. Nada disso. Façamos a nossa parte, buscando forças na graça de Deus, no poder do Espírito Santo, e em oração, vamos pedir “e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal...”, e assim, perseverando até ao fim, chegaremos na cidade Santa e entraremos por suas portas.

Amém.

Pr Daniel Nunes da Silva.

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